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Olhos ancestrais

Espontaneamente surgiste como o sol poente,  a onda que quebra contra o areal. Em teus olhos rasgados de castanho vejo sombras de outras eras  Tua pele desliza mansamente   por entre os lençóis banhados de conchas e corais. Beijarei cada suspiro teu A vida toda ela num espasmo de mãos  contra o peito e a boca em flor quebra-se  como um fruto maduro ao sol desfaz-se a espuma antiga e outro tumulto se aproxima, amor és tu. Oiço a melodia da tua voz  Num eco uivante inventas a palavra amor. Descerras em mim galáxias latejantes de pálpebras palpitantes e mãos que se cerram na força de apertar. O grito que circula o corpo perdido na vastidão de cada segundo junto a ti Quão frágil é, delicado como o beijar de olhos murmurantes  por entre as ondas de sal o meu cabelo de cobre ondulante envolve cada silêncio que morre contigo.   Eu sei quanto és e quanto significas que em ti habitam mundos de outros mundos  que tingem os teus olhos ancestrais d...

Ele (III)

A tua boca sobre mim murmura  o desejo mais leve e louco de ser eu novamente eu, inocente e pura. É a vida lenta que passa os anos que se acumulam e esta inocência servida em taça aos loucos que se amontoam. O equilíbrio das estações deu lugar a esta forma autodestrutiva de quem dá tudo e com nada fica. Seus olhos tão castanhos, tão doces   bem sei que não me ama, que apenas me deseja. Apenas isso ficou, amor.

Ele (II)

Será que é ele, amor? Será que é ele e não és tu? Porque é que não és tu? Esta é a tragédia da vida: querer sem ser querida? Então, não sei dizer se o coração é uma esperança criada no corpo a apodrecer. Ou serás o latejar final? Serás tu ou é ele? Não sei como dizer-te que te odeio em vida e morro por querer-te. Sinto que me faltas a cada segundo. E tu, que sentes? Espécie rara de vulto?

Ele (I)

Sinto o teu amor a diluir devagar, como fumo por entre as colinas deste novo amanhecer. Ele veio, sentou-se no teu trono, vestiu as tuas vestes e, insaciável, olhou-me como quem vislumbra a mais bela esfinge. Adorou-me como o sol. Novamente, o latejar da tragédia. Não ouso dizer o teu nome, com medo que me ouças e estremeças por entre as estrelas ocultas na penumbra.

Até quando tu me quiseres

Quero que digas o meu nome, quando, à beira da cova, restar apenas uma gota de orvalho na tua boca em agonia. Quero que recordes os momentos imersos no silêncio demorado de cada abraço. Junto ao portão esperavas-me baloiçando os braços e as mãos na força de apertar. Eras tu. No campo da minha fantasia, eras dente-de-leão. Enquanto sopro as poeiras galácticas, as lágrimas ecoam: «Até quando tu me quiseres, amor.» Por entre as colinas do amanhecer, o odor dos nossos sonhos misturados, o amor feroz, o amor leve, o amor atroz que consumiu, involuntariamente, os dias dos dias que se transformaram em nada. Dizem que «o que não mata mói». Não quero mais fingir, quero fugir para longe daqui. Ver os ossos, os músculos os tendões, os órgãos submersos na emoção de sermos só um. Respirando ora alto, ora baixo na hora em que descansavas junto a mim.  Mãos dadas para o infinito. Eras tu. Olhos oceânicos, coração de lobo. Eras tu. Por entre os cabelos entrelaçados  o sal e as algas....

Tus sacáis

Em teu olhar reluzente de mar, de céu em chamas que tanto me fascina que tanto me ludibria que tanto me engana Perdi-me nas safiras do teu crânio de amado esposo que morreu por engano na margem do rio nunca antes atravessado vi-te estendido gélido e pálido de covardia, de egoísmo e orgulho. Perdi-me nos teus sacáis de anil no firmamento das promessas desfeitas na poeira das insignificâncias na pequenez das discórdias,  na ressonância da tua voz o eco fez-te Deus.  Mas a tua mirada não engana  a voz que suspira o amor que insistes em calar  reluz nos teus sacáis. 

Thanatos

Ela, é tão bonita que ameaça o teu orgulho de príncipe eleito  no deleito dos seus olhos mortos  em agonia, a boca aberta  carne seminua, inebriada por entre as ondas o encanto de cada trajeto a ecoar das conchas não sabes se é realmente tua quando te molha os lábios e delicadamente sussurra-te ao ouvido tudo o que precisas de ouvir. O rio das águas mornas transforma-se em incerteza em ilusão, de mãos entrelaças de almas despedaçadas junto ao chão. Na tua carne de sal desaguam sonhos no céu da boca afloram as entranhas sentes o palpitar na garganta é amor só poderia ser amor para doer assim. No confinamentos dos dias estão atados os seus cabelos  nos teus dedos, por entre a corrente dos gritos asfixiados de medo não sabes se é realmente tua o ciúme  como um neblina não te permite entender  o quão pura é esta mulher. Quando saíste pela porta  ela sentiu que não voltarias e aos ventos gritou: "Então que cavem duas sepulturas,  se eu morrer eu promet...