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O Sal de Agosto

Por entre vinhos escarlates, o teu sorriso num entardecer. Ao fundo, no Largo do Chafariz, o deslumbre do pratum que ecoa.   Desço a Bacia do Prata suavemente, como quem desliza por entre os jacarandás. Avisto o teu vulto.   A aragem trava-me os movimentos. Paro. Olho a janela infinitamente. É aqui que beijas os lábios de cereja?   Sem me dar conta, vejo que estás enamorado de outra.   Não tenho a ousadia de subir a escadaria. Como poderia atormentar-me com um destino terrível? Querer quem não ousou partir.   A minha voz é purificada pela luz da tarde que refrescou. E nada me resta, anjo meu, senão este mês de agosto, onde jaz o sal na ondulação do mar.  

O azul inteiro

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Nem mesmo já velho deves ancorar-te na ilha. Não aprisiones o teu caminho  entre as ruínas e o desalinho.  Apenas existe a viagem.  Há dias de verão em dois mil e vinte e seis em que o cabelo solto, húmido,  sujo de areia, se confunde com a paisagem verdejante e rumorosa.  Quando se despia, exposta ao vento, amortecia-te a alma num sorriso. Musa que os teus olhos fintam, nácar e coral à flor da pele. Já não terás de pedir a aprovação  da tua vida amontoada em papéis. O divino de existir nas marés quentes onde juntos se banhavam num mundo cujo tempo não existia.  Para a areia se jogou a Musa feita de nuvens. As palavras derramavam, com as pálpebras cerradas, por entre a férvida alegria de seres o azul inteiro da paisagem. 

La Pagerie

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O perfume das rosas desfez-se por entre a ressonância dos dedos a porcelana perfumada do chá.  Já despojada do império, sorri... Vestida de seda, de fluidas memórias.   A sua voz é atemporal. Ecoa entre os espinhos  do castanho avermelhado que ondula, sobre o seu rosto reclinado  por entre pinturas, cartas e esculturas.   O tempo banhado em azul-turquesa. E tu voltaste a La Pagerie, entre hibiscos de folhagem exuberante, onde a natureza ganhava espirito absoluto. E as essências do jasmim evaporam-se.  Em cada infusão, o som das ondas. 

Renascimento

Serás tu aquela que destrói a luz ou a que invoca a cura? Em cada bago da romã  a promessa ecoa suspensa. Parou, desceu do cavalo,  colheu as flores silvestres coroou-se de brisa agreste. O seu cabelo de cobre escorrido  por entre as gotas suspensas. O poder tornou-se eco, de água suspensa no ar. Engolindo cada gota  como absinto  no pardo luar.