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A mostrar mensagens de novembro, 2008

Passado desmembrado

Tudo parece-me transcendental apática, perdida sem cor a vida, é esfinge cadavérica movendo esferas, numa valsa teatral Totalmente imóvel, como um pilar de sal minha boca permanece solidificada pela dor dum abandono. Pés caídos, desmembrados enquanto ecos de assombro povoam-me o espírito! Diz-me que abriras os olhos, diante de ti a miséria a fome de cada dia. Já não sinto os cortes nem as fracturas expostas a drenar o sangue do sangue dos olhos que olham nos teus sem nome. Nas cadeiras bandas, nas esquinas por entre o piso molhado. As gotas da fobia cerradas neste quarto onde tempo passa sem pressa de partir ao chegar sem vontade de esquecer o teu rosto aquilo que faz a lua sonhar.

Lince

Teus olhos de lince  cámelias meladas ao sol querem me devorar em meiguice por debaixo das vertebras dum lençol Na polpa encarnada da tua boca aflora um mundo instintivo e animal e na curvatura do teu sorriso a luxuria canibal. dentes em lava, num desatino beijo num folgo brutal sem pressa de partir ao chegar Sinto o gelo quente do teu olhar perdido em planicies e planicies de silêncio sinto o calor da febre a bafegar na longitude do teu pescoço como um cálice envenenado que me consume até ao osso E nos batuques do meu peito teus olhos aguçados e felinos presos em cada gesto. cada expressão na fluidez da minha mão. incerta dum destino. É hoje, talvez, o último dia que vejo o luar preso na raiz dos pensamentos cabelos grisalhos que traçam linhas de linhas água e sal, pescador de momentos Vejo na suavidade da tua pele brotar a cor exacta do teu nome, do teu jeito de andar só pelos caminhos mastigando emoções. fumado ilusões rasgando sorrisos...
No algodão doce daquela tarde a tua mão derretia açúcar cristalizado. tua boca na minha Havia nuvens que flutuavam em teus ombros horizontes tal e qual um pássaro planavam em meus olhos carnais senti a loucura, a despir o teu corpo a tomar a forma dum bafo quente dum cigarro aceso senti a loucura a engolir o pensamento Como dizer o silêncio do teu peito contra o meu os gestos que brotavam da foz da alma alma que não cabia em mim e que em ti não restava O vulto do teu rosto diluía-se nas gotas de chuva que escorriam do para brisas do carro que corria sem pressa de chegar Não havia luar, apenas nós e os lampiões que não podiam esconder o desejo de te ter. Nas paredes do vento ficou aquele momento. sobre grande neblina nem tudo o que veio chegou por acaso na penumbra dos cabelo enrolados mãos tombadas sobre o céu lábios que suspiram um adeus...