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A mostrar mensagens de 2007

Neura

Nesta neura, em que me encontro, as mãos tremem os sentidos ficam cobertos por uma espécie de neblina e parece que desmaio parece que vomito parece que me esvaio mas tudo nao passa dum delírio estou fernética o pulso latejante a cara toda ela coberta pelas gotas da fóbia tenho medo tudo parece visível e ao mesmo tempo tão impalpável grito...e o meu grito é apenas um eco pedra caindo no fundo do poço gritas...agitas o meu corpo franzino agitas...dizes para desaparecer gritas, agitas... entao surge, algo inesperado adormecido o animal primitivo com os dentes em lava, num desatino cravo as minhas unhas na tua pele puxo te pelo braço... faltam-me as pernas quis falar e nao tive voz... deixas-me só, ao abandono depois de me ter sugado a carne mal sinto o meu corpo chorando compulsivamente cada arfada de ar parece a derradeira cada lágrima parece a primeira... planicies e planicies de silêncio se abatem sobre mim ...

Ilusões

Pendem secretas mensagens e cidades azuis de vida de teus ombros miragens por uma palpitação perdida Em teus olhos resignados a luz das estrelas cadentes onde navegam os pecados mais empalidecidos e doentes Tombadas mãos junto ao peito deixadas ao acaso da lembrança refugiadas no doce jeito da eternidade vã da esperança

Depois

I E depois do abraço um jardim de buzios e corais, davam á costa... Na areia movediça da descoberta o pestanejar dos pensamentos, fluiam no canto da tua boca... II Os lábios tentam decifrar o aroma do sol ou talvez o calor do mel... por debaixo da fluidez dum lençol a textura da tua pele e depois do abraço e depois de nós o silêncio insurtecedor em teus olhos de planície lastimosas apenas promessas de amor... III Nas arcadas dos meus lábios, intemporais pequenas gotas, amargos tragos onde os teus beijos não são reais... IV Hoje acordei com o teu beijo debruçado sobre o horizonte manchas de tristeza e ruína lembranças apagadas... promessas duma vida e junto a vidraça um punhado de camelias, meladas ao sol, murchas, gastas, moles doçuras em minhas mãos ancoradas...

Engano

Este prazer de me enganar de me iludir de olhar para o mundo a sorrir faria dó a toda a gente eu sei que quero mais muito mais, longinquamente... para além destas cortinas pretas de cetim que escondem os vidros estilhaçados que guardo dentro de mim

Eu sou...

teimosa, convicta coluna macissa de altivez nao abro mão de nada nao consigo ficar calada nem sei dizer adeus perpicaz, persistente desejo louco e enlouquente de vencer o jogo da vida as cartas que domino apenas as lanço duma vez...

Beijo

beijo-te... no início do nada como se depois do abraço o céu fosse mar e o mar fosse céu e após o vínculo das nossas bocas os sentimentos não passassem de fúrias volteando loucas na foz d' alma...

Aqui!

Aqui me tens, meu bem, sou tua segura nesta ambição de esperança deslumbrada com a palidez da lua fluido no crivo da lembrança. Aqui me tens, à noite, desviando o lençol, que é ancora de tempestade desejosa de estribar o sol, perdido algures nesta cidade. Aqui me tens, meramente, a recordar, aquele azul bravio, sem dono a tua mão curvada, sobre o meu sonhar hoje apenas folhas deixadas ao abandono... Aqui me tens, caída, neste chão, por onde passa tanta gente e ante o silêncio da solidão, meditando-ó como te amei-inutilmente.

Primavera

Nesta noite de primavera a lua escorre como prata líquida sobre nossos voltos calados naquele instante que os unia.

Eternidade

Tudo pode ser traido tudo pode ser abandonado menos as verdadeiras memórias porque há coisas, locais, histórias que não fogem, que não voam que não se esbatem na imensidão dos pensamentos...

Bárbara

Bárbara a dos olhos de vidente bárbara de Camões coroada de desdém cativa de coraçoes prisioneira do além bárbara só uma... aquela que me aprisiona com correntes de loucura... bárbara, teu nome é ternura ancorada numa tempestade doce delírio, alucinaçao semeada em cada rua neste circulo de lua sombra fatal e apetecida brilho que seduz bárbara de luz... não há dúvida que de ti não fujo que te procuro... por entre os lençois e as histórias doces vis memórias esquinas de frutos e azuis... Bárbara imaginação de corais e dunas sal de emoção sem língua, cor ou nação... bárbara só uma selvagem nao é de ninguém e é de toda a gente bárbara, raiz de vida bem conhecida que me absorve, timidamente bárbara arfada de quem quer entranhas de mulher de essência tão leve, tão solta bárbara a prisioneira o gume, o lume, a lâmina, o segredo que nos agrilhoa ó bárbara teu nome é perda e ganho é mistério soterrado num íntimo desejo suspirado bárbara a dos olhos vora...

Descoberta

Conheci-te um dia destes perto daquela misteriosa esquina entre o inferno e o céu algo me veio à memória qualquer fragmento gostativo apaladou aquele momento seria talvez o vento a deslizar a rua...

Palavras

As palavras não gravam e não apagam as memórias são apenas testemunhas da consciência fragmentos duma história a procura da perfeição!

Mar

Quero ver os dias a passar sentir na curva do olhar a profundidade do oceano acordar com a boca rumorosa num desejo de conchas e corais. Quero sentir a brisa e a areia no pulsar da veia quero ver a vida a acontecer o corpo flutuando sem destino manchas de cor que correm para o infinito onde o sol morre e é maior o amor.

Livre

Acordei. Sou manhã de abril. Estendi os braços ao vento, senti cada pulsar do pensamento livre tão livre, finalmente...

Lobo

Doi-me esta claridade, que corre lenta pelo corpo. Doi-me saber a verdade, tenho em mim um lobo que chora ao luar, o rumor do tempo frio!

Pensamentos

Tenho os lábios secos A língua presa de tanto de falar Tenho os dedos sangrentos As unhas lascadas Da força de te apertar Sinto os olhos trémulos Ensopados de magoa e amor Sinto o coração desfeito Moído ensanguentado de dor Tenho a alma inerte Espectro da solidão No fundo, não sinto nada, Apenas desilusão… Deixa-me morrer Deixa-me morrer Para renascer em ti Deixa-me morrer Que melhor é morrer Que viver assim II Meu bem… As vezes convêm Tirar um dia para pensar Imortalizar um sentimento Tirar um dia para esquecer O mundo, a existência, o tempo… III No lótus azul do destino Meu bem, vejo-te comigo, à deriva Nenúfar de deslumbramento Perder-me em teus braços por um momento Enquanto que os olhos se fecham Embarcando numa espécie de sonho E poderia ser ternura Se o infinito conseguisse alcançar A longitude do teu olhar… IV Amantes, Tão docemente amantes, Perdidos entre mil beijos e abraços, ...

Bárbara

Vejo-te estilhaçada na cama teu cabelo ruivo escorrido como cobre derretido tua voz soturna e meiga. Desejo cada ínfima parte do teu prazer tua carne macia a escorrer por entre os dedos o cheiro branco dos lençóis. Enquanto a demência dum sorriso aligeira a veemência do meu delírio... (re)vejo-te por entre o ar abafado da noite adormecida no meu peito... deixando tudo ao abandono num perfeito doce jeito de escrava sem dono.