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A mostrar mensagens de outubro, 2020

Tus sacáis

Em teu olhar reluzente de mar, de céu em chamas que tanto me fascina que tanto me ludibria que tanto me engana Perdi-me nas safiras do teu crânio de amado esposo que morreu por engano na margem do rio nunca antes atravessado vi-te estendido gélido e pálido de covardia, de egoísmo e orgulho. Perdi-me nos teus sacáis de anil no firmamento das promessas desfeitas na poeira das insignificâncias na pequenez das discórdias,  na ressonância da tua voz o eco fez-te Deus.  Mas a tua mirada não engana  a voz que suspira o amor que insistes em calar  reluz nos teus sacáis. 

Thanatos

Ela, é tão bonita que ameaça o teu orgulho de príncipe eleito  no deleito dos seus olhos mortos  em agonia, a boca aberta  carne seminua, inebriada por entre as ondas o encanto de cada trajeto a ecoar das conchas não sabes se é realmente tua quando te molha os lábios e delicadamente sussurra-te ao ouvido tudo o que precisas de ouvir. O rio das águas mornas transforma-se em incerteza em ilusão, de mãos entrelaças de almas despedaçadas junto ao chão. Na tua carne de sal desaguam sonhos no céu da boca afloram as entranhas sentes o palpitar na garganta é amor só poderia ser amor para doer assim. No confinamentos dos dias estão atados os seus cabelos  nos teus dedos, por entre a corrente dos gritos asfixiados de medo não sabes se é realmente tua o ciúme  como um neblina não te permite entender  o quão pura é esta mulher. Quando saíste pela porta  ela sentiu que não voltarias e aos ventos gritou: "Então que cavem duas sepulturas,  se eu morrer eu promet...

Sonho

Deitada, levanto-me Levantada, deito-me  Sonho acordada e desperta tudo parece desfeito dentro da angustia dos dias o tempo é a ausência da tua voz do teu riso, do teu cheiro, do teu sabor recordo-me vagamente  do rastro de sangue que deixaste  quando partiste e as escadas rolantes  tornaram-se infinitas Levanto-me, deitada Deito-me, levantada Acordada sonho adormecida penso em tudo  o que poderíamos ter sido mas não somos a delicadeza dos suspiros a gentileza de cada beijo o toque suave da ponta dos dedos o amor que parecia tão puro e único incendiariamente esfumou-se por entre as estrelas o pó da fantasia.  

Deusa feita mulher

Quão frágil é a paixão? Flor delicada e soturna Quanto mais se rega mais murcha. Esqueci o céu da boca onde brotava a água dos teus beijos e de longe perguntei: ainda estás comigo? Cada vez que os teus lábios se abrem inundam-se de vazios, de promessas feitas silêncio. Deixei os jardins  que brilham nos teus olhos de príncipe azul fulminante. Abandonei-me ao desespero. Assumiste o amor na abundância mas nunca na penúria,  na dor, na mágoa, na neblina... Desejas o amor levitante que caminha sobre as águas celestes do anoitecer. Mas nunca no espaço fulminante   que é a tragédia da vida. Na cidade as ruas ainda te esperam desérticas as mãos permanecem  naquele entardecer onde juraste  que seria para sempre.