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a noite era tanta

A noite. Tenho medo do tempo que parte ao chegar não consigo dormir. A morte é a mão que embala deitada sobre a cama. a alma repousa cru e nua. não imaginas de que cor é a fantasia prolongada. o outro lado da lua onde mora a escuridão. por entre as paredes que ressuscitam. o céu era triste. os ramos mais altos não alcançavam a luz dos olhos que brilhavam lembraste? A noite. O tempo morno junto ao mar do norte mãos dadas sobre o peito. Num leve sombrio jeito de cabelos carmesim deixados ao abandono por entre os dedos. Segredos da tua pele branca na minha boca a miséria obscura de quem não tem controlo sobre si lembraste? A noite era tanta. O vento forte Na fúria de ser livre. O sonho de te ter em mim.
A terra transpirante o musgo ofegante. tuas pernas descaídas por entre a erva daninha eras um animal insaciavel eras um ser uivante sempre a procura de mais Sugavas-me a alma até não restar nada por entre a selva dos sentimentos tremiam-me as mãos.na ânsia de as apertar Faltava o ar. não haviam montes apenas o eco surdo dos arvoredos por entre a tua carne branca adormecida no lençol do tempo No jardim proibido. cadáveres perdidos folhas deixadas ao abandono eramos prisioneiros dum momento. eterno no seu fim como é bonito o osso nu e cru aquilo que restou do teu sorriso. em mim

Palhaço assassino

O sol estava negro, expectante a lua não existia. morreu vestido de luto, triunfante o teu vulto carnavalesco apareceu... O gume da faca estava quente em tua mão elouquente. ardeu meus olhos em pasmo e espanto meus olhos vazios. amargo pranto a lua morreu... Teu cérebro moroso ou esfuziante não consegue chegar a clarividência não consegue perceber a enlouquencia de minha alma viva. fuzilante Como consegues erguer a tua coluna animalesca neste circulo de misérias que alimentas chamem os outros palhaços criaturas bizarras, teatrais para que vejam. tu, ser desgraçado a ser cruelmente esmagado por minha boca ensanguenta minh'alma sofrida. acabada minha mente crua e nua traça o teu destino, num leve adeus como ferida aberta, fulminante como uma criatura assassina dentes em lava, onde jorra sangue sedento de vida... Chamem os palhaços lamechas que preenchem o palco. rumitando barbaridas. piadas patéticas enfastiantes para que te vejam caido ...

Desilusão

A desilusão não tem cor. Não! Não tem sabor é uma neblina que trespassa feito lança e mata... aquela doce esperança por entre uma nevoa que nos cega que mancha o luar e rasteja vaporosamente. o medo de sentir o medo de perder aquilo que nunca fui e que um dia serei O medo... acaba com o calor da tua mão sem cessar a desilusao arde...no peito, queima-me a pele Neste instante que é a vida tudo se transforma, folhas de Outono á deriva no cemitério da minh'alma Tudo era para ser perfeito era... uma leve quimera meu amor...o que foi que aconteceu o mundo ja não é meu. não. ficou mudo,num leve adeus

Passado desmembrado

Tudo parece-me transcendental apática, perdida sem cor a vida, é esfinge cadavérica movendo esferas, numa valsa teatral Totalmente imóvel, como um pilar de sal minha boca permanece solidificada pela dor dum abandono. Pés caídos, desmembrados enquanto ecos de assombro povoam-me o espírito! Diz-me que abriras os olhos, diante de ti a miséria a fome de cada dia. Já não sinto os cortes nem as fracturas expostas a drenar o sangue do sangue dos olhos que olham nos teus sem nome. Nas cadeiras bandas, nas esquinas por entre o piso molhado. As gotas da fobia cerradas neste quarto onde tempo passa sem pressa de partir ao chegar sem vontade de esquecer o teu rosto aquilo que faz a lua sonhar.

Lince

Teus olhos de lince  cámelias meladas ao sol querem me devorar em meiguice por debaixo das vertebras dum lençol Na polpa encarnada da tua boca aflora um mundo instintivo e animal e na curvatura do teu sorriso a luxuria canibal. dentes em lava, num desatino beijo num folgo brutal sem pressa de partir ao chegar Sinto o gelo quente do teu olhar perdido em planicies e planicies de silêncio sinto o calor da febre a bafegar na longitude do teu pescoço como um cálice envenenado que me consume até ao osso E nos batuques do meu peito teus olhos aguçados e felinos presos em cada gesto. cada expressão na fluidez da minha mão. incerta dum destino. É hoje, talvez, o último dia que vejo o luar preso na raiz dos pensamentos cabelos grisalhos que traçam linhas de linhas água e sal, pescador de momentos Vejo na suavidade da tua pele brotar a cor exacta do teu nome, do teu jeito de andar só pelos caminhos mastigando emoções. fumado ilusões rasgando sorrisos...
No algodão doce daquela tarde a tua mão derretia açúcar cristalizado. tua boca na minha Havia nuvens que flutuavam em teus ombros horizontes tal e qual um pássaro planavam em meus olhos carnais senti a loucura, a despir o teu corpo a tomar a forma dum bafo quente dum cigarro aceso senti a loucura a engolir o pensamento Como dizer o silêncio do teu peito contra o meu os gestos que brotavam da foz da alma alma que não cabia em mim e que em ti não restava O vulto do teu rosto diluía-se nas gotas de chuva que escorriam do para brisas do carro que corria sem pressa de chegar Não havia luar, apenas nós e os lampiões que não podiam esconder o desejo de te ter. Nas paredes do vento ficou aquele momento. sobre grande neblina nem tudo o que veio chegou por acaso na penumbra dos cabelo enrolados mãos tombadas sobre o céu lábios que suspiram um adeus...
o corpo deitado ao acaso debaixo da clarabóia do pensamento o céu cinzento imóvel congelava a boca do tempo monstros de cimento abatiam-se sobre mim como mãos que esmagam flores dentes em lava rasgando o algodão doce. a tua memória há questões que não valem a pena as horas debruçadas em respostas vagas que se amontoam em vãos de escadas não há voz, nem registo, no último som da melodia incerta dos prédios que caem sobre as nossas cabeças notasse como expressão. um grito que estrabaça das muralhas obscuras. solidão notasse a testa franzida os lábios gretados e poeirentos. trémulas mãos perdidas no esquecimento. ruelas duma sensação cada regresso tardio é uma fuga aguda embriagues nocturna, raio de chuva carne da minha timidez agora sangram os portoes de ferro que se abrem até ao céu paredes de cal e miséria deste quarto, doce quimera arrumo a bagagem. penso nos teus olhos nos meus sigo viagem...num último adeus...
vegeto. nesta cadeira morbida preta nesta sala de enfermidade extrema vegeto. olhando paredes que caem sobre os dias que se abatem nas sombras perdidas que contemplo no castelo assombrado da minha fantasia sou restos daquilo que foi certo dia impaciente solta-se o vento na espessura sombria. os meus cabelos nas promessas presas. olhos de cristal esvoaçam a rir.a bruma do desalento mistura-se o sal. espuma dum momento enquanto relembro. a tua boca na minha num silencio obtuso. em labririntos de cor o tempo dos desejos cessou em teu olhar penetrante.de castigo o mundo finou. vegeto. neste espaço bolorento gemidos dum soalho antigo. livros empilhados na jaula.os sentimentos relembro num tic-tac infernal. lento...lento... o tempo ilusão dum destino o tempo um momento poeta cuja a alma pensa e sente lânguida e sem gula. a procura da vida sem pressa de a viver. perdidamente lancei minha alma num desatino cruzei braços. esperei. boca fixa no horizonte numa g...
Corro pelas ruas desta cidade meço degraus. trepo muralhas não encontro nada. a raíz do passo caminha na raíz da vida passo a passo,mil metros quadrados exposto ao desalento. mãos cravadas como farpas por entre fios de cabelos. o vento ouiço-te a dizer adeus essa palavra que fez da noite madrugada não sei de que cor é a tua boca lembro-me da língua subitamente solta pelas ruas. pelos becos. como uma onda rebentando de mistérios em teus olhos ficticios. animais. Vegeto pelos escrombos aqui não há viv'alma são becos decadentes. extermínio onde a carne fez-se verso um verso livre. sem palavras. nem sentido debaixos das pedras havia sorrisos havia esperança. em meus olhos de criança em teu rosto de anjo adormecido. já não há. E o silêncio é tudo o que resta para quem nada têm.
"quem dorme à noite comigo" é minha dor, o meu castigo! O medo perfura-me os instestinos mora comigo,mas só a ansiedade embala-me num balanço de tristeza. "quem dorme à noite comigo" na podridão dum silêncio que fala é minha expectante alma. Num tic-tac infernal, num desatino o tempo da vida preso na minha mão o tempo da carne, um destino. " Quem dorme à noite comigo" o meu amaldiçoado segredo. Junto do caixão emudece-me o peito. A solidão grita tentando salvar-me dos vermes que brotam do chão dos lírios que crescem na margem dum sono ligeiro junto ao coração. " Quem dorme à noite comigo" é minha tristeza, meu desalinho. Busco o folgo primeiro que jorra no rio da tentação querendo salvar-me desta morte anunciada deste meu corpo, valendo nada deste meu eu preso em mim " Quem dorme à noite comigo" é meu desassossego, meu desalinho. Hoje digo, quem dorme a noite co...
Um amor impossível, é sempre um amor impossível, por mais formas que assuma, a verdade será sempre só uma.... Os cavalos não olham para o céu, nem sentem as nuvens, nem sabem o sabor do ar. As gaivotas nunca deixaram de voar. Cada ser é constituído por si próprio, pela sua natureza. Devia saber que esta vontade de ser tua, seria condenada pelo brilho da lua, seria apagada pela a certeza indubitável, dum amor impossível. Tu és um cavalo bravo, um ser alado, que galga os montes num desatino. Eu sou leve gaivota planando a encosta acidentada por entre o ar azul tenebroso, tentando talvez sobreviver ao tempo chuvoso, aos relâmpagos de Zeus. Tu não podes ganhar asas e tentar voar mais alto, como eu, meu amor. Nem eu posso, caminhar sem ter horizonte, por penhascos negros e agrestes planícies .. somos de diferentes matrizes. Somos habitantes da mesma esfera. Somos infelizes. Meu cavalo negro,semeador de morte. Não sei qual o teu nome, nem preciso de te cha...

Jogo

Meu choro de gaivota perdida bate no vidro da janela esvai-se por entre as esquinas desta cidade perde-se nas ruelas como o fumo dum cigarro esquecido. Minha boca seca, dá de beber a dor o mundo num segundo... A chuva morre na curvatura dos meus ombros alongando a dor, sob fogo cruzando, lua morta ou sol distante vejo-te, sem luz para olhar abrem-se lembranças, cortinas dum destino enchem-se de ar, num desatino as flores murcharam de repente em meu olhar... enlouquente rios sem fonte, brilham p'ra ti E por penhascos negros desejos vãos, duma boca de mel e cetim caminham secretos até mim. Acontece, que neste jogo de sorte e azar o tempo não volta atrás o brilho amaldiçoado da lua levou-te... cavalo de sombra galgando planicies perdidas em noites de versos e sons duma grande sinfonia. Pelo horizonte de boca liberta galgaste por entre a areia descoberta de minh'alma exilada, neste convento de solidão de minh'alma presa, a uma escrava desi...

Negra

Eras negra cativa espaço de deleito e pecado tua pele santa e tentadora, de mulher. teu corpo estilhaçado num colchão de palha tombado pronto a satisfazer. Tinhas os olhos cerrados esses diamantes raros, nunca mais avistaram a luz. Tinhas a alma cadavérica, gritando por piedade enquanto o pensamento voava tal e qual uma borboleta junto ao rio pousava na tua mão de mãe, de irmã, de filha, de neta de alguém,  na tua mão de criança. Escorriam-te dos olhos as gotas da fobia suores frios e trémulos, apoderaram-se de ti tinhas um crucifixo pendente do peito a boca manchada de sal e fel enquanto gotas de sangue caiam das tuas mãos apertadas da tua boca cerrada do teu útero de mulher Vieram do nada, de terras malditas aqueles seres uivantes, sedentes de desejo aqueles seres rastejantes, arfando imundície. esfregando a pele sebosa e dita cristã roçando testículos cheiro a escremento ejaculando vermes de desalento em teu corpo pequenin...
Trago no fado desta noite a curvatura dos teus ombros, intemporais perdi-me em terrenos de luz e sal perdi-me no infinito segundo da tua mão na minha. Nuvens, nao havia, apenas uma noite profunda sem estrelas nem lua minha pele derretida como cera em tuas mãos minha alma nua por um momento, meu olhar apagado indulgente tecendo melancolia... trago no pensamento esta noite a voz muda inocente um cheiro inusitado de conchas e mar perdi-me, talvez, nem sei no verde oceanico do teu olhar a luz que derramava dos candeeiros preenchia os vazios da espuma solta ao longe o som dum búzio escondido voava tal como o vento por entre nossas bocas murmurantes voava por entre as ruas que a cidade tem gentileza dos meus cabelos trago na saudade deste poema a louca fantasia de ser alma da tua alma, até ser dia o amor passado que a boca sentiu e calou já eu os vivi, o tempo selou lembranças que me trespassam como punhais lembranças que me fazem sorrir das cinzas negra...
Tenho um cansaço imenso das coisas que não são minhas e aquelas que me pertencem tenho-as cansadas, a deriva talvez não seja cansaço apenas uma especie de desilusão que se entranha por debaixo da pele que mastiga os dias que passam às avessas, passam, depois caem no abismo das palavras que ficam por dizer ou daquelas que não deviam ter sido ditas estou tão cansada de te ver, de ser mendiga do teu mal querer... cansada, dum cansaço maior e vertiginoso cansada como um touro enraivecido que cai por terra vencido estou cansada do mundo e do que ele contém, múltiplas formas distintas de cópias identicamente estúpidas de tédio rastejante de tédio repugnante cansada... ( este poema bebe do cansaço de Álvaro de Campos)

Búzios e corais

Naquela praia pacifica e nua vi astros diluídos na lua serenata de conchas vaporosas vi teu rosto de anjo adormecido por entre as dunas da minha carne branca exposta Naquela noite de bruma teu olhar era verde, azul e espuma era frágil encantamento ah! se algum dia o destino souber nos falar das ondas que fazem o mar esculpidas nos teus cabelos se algum dia souber desfazer a candura daquele anoitecer nuvens roçando como novelos e por entre a sombra crua dum beijo morno, esquecido meu olhar diamante, perdido nas encostas do teu dorso nas entranhas dum pesadelo animal selvagem, monstruoso a noite era fria até gelar era volúpia obscura era... gaivotas fugindo, horizonte de teus ombros intemporais braços abertos, musica, vento sussuros e medos verticais povoando o pensamento era... noite de abandono boca de sal e fel tatuada, ferro e fogo na pele cão uivando sem dono numa praia pacifica e nua vi meus sonhos pesados como rochas vi granadas de miséria ...
Come o meu medo, vil segredo da tua delinquência. Come a massa viscosa que me cobre carcaça bolorenta. Bóiam farrapos da vida, que uma vez fui... Vejo-te diante de mim com o riso e soluço de chacal. Vejo-te a mastigar o coração atado junto ao peito. Não tem cor nem forma este mal que me escarnece e degrada de ser carne da tua carne fortuna desgraçada de ser escrava cativa da tua eloquência alma da tua alma vampiresa. E depois do sol se pôr, os meus pensamentos são um exercito de abutres que rodopiam na cavidade torácica da tua existência. Garras em lava que a vítima vigia garras em lava agarrando a inerte vida. Devastação secreta do teu bico afiado como uma navalha talhando a carne branca e macia. Sugas-me até aos ossos, sou apenas pele morta. Os olhos ja sem viço num silêncio de pasmo nesta luta ingrata cada tentativa falhada atormenta minha mente exposta. Os vermes que brotam e crescem...

Gueixa descarnada

Havia um cemitério de pianos que tocavam só para ti na fatalidade desta existência como o vento nas areias Cada acorde atemorizava teus olhos espectros de água tua boca de gueixa. tinhas os membros pendentes como estalactites nas mãos o nó cego, apertado dum vil obscuro passado... Quebrou-se o gelo das colinas, ímpia, cruel e culpada, tua pele ensanguentada luz trémula de lamparina. A noite corria vagarosa agitados teus cabelos perto do abismo. teu vestido rubro e poeirento, que rodava fora da vista, tacteou... por entre o arvoredo as rochas e o escremento tacteou... por entre a vida. Tinhas feridas expostas, mas não sentias os dedos eram carne pisada, e tu morrias no fim da colina um cheiro a incenso ou velas de altar falsos choros de clemencias por entre flores putrefatas rezas de beatas, cadeiras bambas e bolorentas E nisto... um vazio. o nada na polpa da boca descarnada no vestido branco de seda...

Navalha

Havia mosquitos infernais em tuas olheiras lágrimas teatrais rompiam as veias quero lá saber que morras por mim podes morrer dava tudo para te ver sofrer no calor da navalha o sangue escorre uivam cães nas colinas e uma estúpida neblina tenta me esconder mas eu estou aqui. Não me ves? sinto os teus pés sangretos os lábios rasgados e poeirentos sinto-te a esvanecer estou aqui para gravar o teu nome junto à minha lápide

Tu

Naquela tarde. Lembro-me como gentil dormias por entre o arvoredo minha mão sobre o teu peito cabelos desalinhados. janela.vento. No ar o cheiro agreste do sol montanhas e montanhas se abatiam sobre nós E o tempo corria vagaroso em teus braços de alecrim...

Livre

Para onde vou nada existe sou livre para onde vou como um pássaro, livre mas se me ponho a pensar por mais de um momento aflora em mim o cruel sentimento de ser apenas triste. Terei esquecido. talvez de mim no cemitério da vida.

Mundo

Sobre as campas dos soldados mortos o musgo trepa. solidão um turbilhão de espectros arrastam-se por entre as manchas esfumaçadas que cobrem os ciprestes ouvem-se gritos. ricochetes de balas ouvem-se gemidos. gumes de facas O século é grande. tanto quanto a miséria o homem triunfante. preso nos labirintos da matéria caí o suor dos esfomeados caí o sangue dos leprosos caí por terra os condenados caí...caí...caí! Por entre bombardeamentos uma voz, um soluço o desejo de querer sempre mais caí corpo infiel caí pedaços de pele caí regime bolorento caí alma ao sabor do vento E sobre a macabra mesa. jantar divino a Tua cabeça... E sobre o colchão inerte. corpo enrugado o espírito pobre amaldiçoado nos seios virgens duma promessa em nome duma fé em nome dum deus qualquer em nome do progresso em meu, em teu nome a devastaçao aqui, além, mais longe. Minhas veias sussurantes arcadas inquietas, presas numa mão... sei que morri dentro de meu peito sinto-me. inerte entre os vivos na superficie da es...

Doentio

Tenho a impressão, de que ainda me tocas com o fluxo intemporal dos teus dedos. O vinho que adormece os cabelos fez do teu templo minha boca. Num silêncio a preto e branco tinhas o pescoço enforcado nas minhas pernas por entre paredes cansadas o bafejar da chuva que não seca o contorno árduo e subtil dos teus ombros ancorados na almofada Sinto-te entranhado em mim meu ventre cru e nu como um crepúsculo. escapa do teu olhar ouiço uma voz arrastada e sussurante por entre o crivo das horas vagas os pensamentos ficam perdidos navio em mar de bruma navio em chamas Minha alegria culposa, irmã duma orgia estranha dobra-se no colchão onde ficou a saudade o tormento de tanta espera no teu rosto adormecido a solidão. o arrependimento. Tenho a impressão de que ainda me tocas não podendo evitar as nódoas negras as palavras de desdém, a cinza dos momentos o cheiro da cerveja, do limão e da erva seca não houve pássaros nem flores em teus braços: não houve curvas,...
Arrasto esta carcassa desfigurada circulo pelo Funchal. cidade morta com os ossos que nunca vi. carne solitária o sangue ainda corre. numa dor surda um bando de abutres sobrevoava meus olhos reluzentes em cada esquina uma mensagem tua em cada prédio a sombra da tua voz em cada rua o cheiro do teu corpo persegue-me em camara lenta.... Alguém uiva no cimo da escada cada degrau me derruba no corrimão desta estrada surge ao longe um olhar cão da morte. dentes em lava Arrasto meus pés sangrentos cabelos ao tumulto do vento lábios gretados e poeirentos vejo-te nos lampiões destas ruelas embriagado de luz vejo-te debruçado nas janelas jogando facas vejo-te como uma traça girando em torno duma lâmpada penso que és sol. vida eterna...

Sóror saudade

Irmã sóror saudade leva-me para ti nesta noite voluptuosa de desdém e fome. Perdida por entre planicies de cinza e cal teus olhos murmurantes postos em mim como se avistassem um estranho entre os abrolhos duma existência vaporosa. Irma sóror saudade eis me moribunda na amplitude desta floresta eis me vagabunda meu dorso escamoso epilético por entre os cavalos negros de minh'alma. Irmã sóror saudade parece que sofro do meu mal um mal onde habita o meu corpo rasgado em pleno delito, leves lençois de gelo em comunhão com os céus! Como a Noite, Irmã,é luar como o luar são cabelos ao vento e os sorrisos cadavéricos o meu alento Ó bendita Irmã de minh'alma abençoa-me agora e para sempre pois só tu me conheces intimamente pois já nem eu sei quem sou nem onde me perdi!

Fingir

Finjo que estou bem o corpo ensaguentado. vestido a rigor manchas amareladas. feridas decompostas berros descontrolados . por entre sorrisos finjo que estou bem olhas-me mas não sabes por entre as ruelas. uma cidade ninguém sabe. as mãos trémulas e friorentas as pessoas são tão desprezíveis hipócritas e sínicas falam mas não imaginam sou vidro. não veem estilhaços de mim... olhas-me e não sabes dentes em lavas. num desatino finjo que estou bem o corpo embrabece a boca emudece fica a necessidade de saber será hoje o fim...

Recantos

Recantos de minha mente, repositórios de doses viciantes de lembranças fulminantes amarfanhado de corpos e suores... Vejo na sombra do vento os farrapos poeirentos da tua memória uma dor singular e ávida de ti escorre-me por entre mãos atadas... e a voz inaudível...do teu silêncio raspa com um canivete as tábuas do meu caixão... Neste convento de trevas apagam-se as velas que queimaram até ao fim. os olhos fecham-se em trêmula agonia por ente a obscuridade das seivas que se mesclam no puro prazer de violar. Tua pele branca. polpa de framboesa firmamento e lua. estranha beleza repleta de falsos pudores. cada sorriso preso no espartilho. o teu seio amoroso... Mas tudo isto é ilusório. pura fabricação aqui não existem fronteiras sou ser da noite, em desalinho e aflito feito apenas para sugar a medula ossea do teu olhar...
Meia-noite. a lua pujante me avista o relógio marca com hipocrisia meia-noite de qualquer dia sentada á beira desta estrada como um parasita contra a luz que me alumia contra o ser que me habita Beijo a Matéria triunfante por entre a bruxuleanta sentença de ser filha do Pecado mais repugnante duma Eva sedutora, provocante e dum Adão feito Besta Tenho na boca o trago a sangue da ferida que procuro e não acho meus olhos exaustos expectantes vislumbram a glória negra duma cidade desertica fluxo universal da cratéra Ergo-me do buraco de Dante caminho a pé. sem destino galgando ao sabor do vento como um demónio que caí repentino nas portas dum convento a minha alma morta na volúpia da noite ouve o jorro soluçante dum rasgo de luz que levemente escorre à beira dum percepício Meu corpo cinzelado no mámore ou no ébano segue a miragem. trilhos secretos acesa a chama protejo-a com a cova da mão acesa a chama da servidão Dai-me Senhor da escuridão o des...

Violeta de Parma

Sou um vegeto das ruínas o meu ser sente o mastigar de cada hora por entre o céu descoberto o anoitecer Vermes rastejam fogem de mim com asco bebo o absinto das lápides murmurantes dos ciprestes que tornam em silêncio o lirismo impuro os sentimentos tépidos de cada segundo... Sou filha dum tédio, duma dor qualquer por entre sonhos horrivelmente histéricos jardins fantasmagóricos e obsessões... Os resquícios de minh'alma evaporam como fumaça e nos meus lábios aflora a tísica roxa e inefável melancolia... Sou transparência de morte, magreza hirta. por entre a palidez clorótica, desta noite de afronta e solidão e nos conventos abandonados de minh'alma sou brilho cru, agudo e febril sugando os cansaços mornos de uma vida leve bater de asas de cotovia... Sobre o vazio, sobre o nada sou desdenhosa ilusão da eternidade minha boca acidentada por entre os dedos esticados e manchas de realidade. Sou corpo cadavérico deixado ao acaso Sou grava...
Esses olhos ofuscantes onde poisam borboletas lacrimosas superficies de estranha beleza . Longiquos silêncios se despredem no ardume da pele todo o tempo do mundo . aos olhos de quem ama parece tão breve, tão fugaz... para veres a paixão que em mim habita fecha os olhos murmurantes na obscuridade da cada momento fecha os olhos em segredo sente os dedos remexendo na terra da tua cova sente as tábuas do caixão ou as soturnas precês que se esvaem como fumuça da minha mão...

Quero-te

Nem te despediste de mim nem me disseste sim ou não mastigo cada silêncio da tua indeferença sinto o palpitar do coração atrás da porta, um murmurar persegues-me em câmara lenta em cada esquina o teu olhar e a tensão aumenta... neste espaço vazio e esfumaçado perdi-me nos trilhos da minha alma numa alucinação cega e descompassada segurei os teus dedos, feitos de nada fixei os teus olhos, pontos no escuro deixei-me sufocar pela ãnsia do meu querer lancei-me no obscuro... deixei-me morrer...

Anjo Negro

Quando me olhavas voraz havia um cemitério de crianças no teu olhar! Uma tristeza tão profunda brotava na foz d'alma vi, nos campos tétricos das tuas alucinações cada hora preenchida por lírios palpitantes aquarelas que davam-me a emoção do olhar e do sentir tinhas uma espécie de dever o dever de sonhar de sonhar sempre, tinhas esse dever de nunca acordar... Mas por detrás da máscara que usavas um rosto inerte ou expectante conspirava... manchas de sangue cobriam-te os pés por entre lembranças ocas momentos cristalizados no filamento das nossas bocas pensei que eras poema linha horizontal deslizando na curvatura dos lençóis amontoados cabelos tombados flutuante lua mas apenas povoaste as entranhas do meu imaginário sugando-me a carne numa procura hedonística de saciedade triunfo da tua vaidade
em busca dum beijo, tacteei aquele circulo de árvores o brando respirar da natureza desenhou-se um sorriso na curvatura do teu olhar um suspiro...cai por entre os ramos fio de luz... devagar ficou o abraço preso palavras esvoançando ficou o cheiro molhado das encostas o leve roçar dos teus dedos no interior dos meus ombros e no meio dum silêncio imenso ficou o esboço da minha sombra ternura secreta açucarada da tua boca
porque choram os meu olhos, diz-me amor, devagar... porque tenho medo de acordar porque vivo de ilusão porque me entrego à paixão porque vibro assim, com o luar! que levaram de mim com que palavras me enganaram que levaram de mim que armas usaram porque seca a minha boca, diz porque tenho pavor de sonhar porque vivo de emoção porque digo sempre não e vibro com as ondas do mar... que levaram de mim com que sorrisos me enganaram que levaram de mim que engenhos usaram?

Vontade de ti

Segurei os teus dedos e disse : "não sei porque me perco em cada montanha, o teu olhar" tenho vontade de ti do tom açucarado da tua pele dos meus cabelos carmesin caídos por terra tenho vontade de ti sentir a tua, a minha boca nuvens roçando o horizonte... tenho vontade de desvendar o que os teus olhos murmuram e escrevem escutar o que fica nos espaços das letras o silêncio... Tenho vontade de sentir a polpa da tua alma presa em mim vontade de rasgar o verde oceanico do teu sonhar tenho vontade de ti aninhado no meu peito mãos tombadas sobre o chão tenho vontade de ti de mim do que seremos... segurei os teus dedos num misto de alegria e tristeza segurei a medo planicies e planicies de incerteza povoavam a minha mente mentiras coloridas doces que me fazem ter vontade de ti...

Noites

insónias. noites de afronta e solidão insónias. pesadas como chumbo mãos mortas povoando o mundo e a lua! observa-me e a lua! esconde cemitérios de palavras proferidas pela polpa da tua boca não imaginas. o sol caí... fica o livro que nao leste o filme que não viste a foto onde não estiveste presente não imagina. a noite caí... a falta que me faz

Esperança

Sinto cada célula a desagregar o corpo a fraquejar será paixão. ou medo todo o que chega as minhas mãos não me pertence meu espírito hesitante teme o futuro expectante tortura-se com o passado com as memória, previsões antecipadas impulsos que tentam me estrangular impulso que tentam me envenenar impulsos que me dominam que aterrorizam a minha existencia... Sinto pouco mais que uma gota de suor pouco mais que uma lagrima e o pouco depressa se transforma em nada...

Habitas em mim

habitas em mim. na longitude da minha pele na ternura do meu olhar, como se fosse milenar o calor dos teus dedos a sensação perfeita, cadencia de cada nota habitas em mim.eu vejo-te e perco-me os teus olhos são luas um céu onde correm palavras existe sempre, no meu corpo, a memória do ontem o sabor do amanhã habitas em mim. esqueci o meu nome sou vento agrestre, palavra proferida por ti são os instantes da vida

Hoje

hoje, quando senti a ondulação do mar,aguarrei os cabelos sonhos desfeitos na iris do teu olhar naquele espaço infinito teu rosto adormecido palavras flutuantes cristalizam os sentidos onde cada toque era unico cada som, cada gesto céus silenciosos se erguiam por entre a minha voz suave, melancolica debroçada no teu peito num suave doce jeito perdi-me na loucura da tua boca...

bolor

O bolor dos dias vagos das horas adormecidas corre pelas veias...em agonia paredes lúgubres manchadas de cólera de secreções amareladas onde crescem fungos nas janelas Sinto na pele organismos estranhos líquidiz turva e espessa compressas de tortura cobrem as feridas que não saram os dias que não passam as nauseas estonteantes corredores húmidos cadeiras bambas... sobre chão decomposto... Por entre os cheiros a enfermidade todos os momentos felizes se esvaem da imaginação num estado tão frágil o mundo perde-se na minha mão...

Momento

Na suavidade do teu dorso senti a essência da loucura na tactidez da tua pele na abstracçao de cada linha nossas bocas feitas de mel naquele instante que as unia Por entre os dedos esticados o sabor da lua uma luz meiga soturna reclinada sobre o teu peito num leve doce jeito de cabelos tombados como cachos de uva...
poderia ser como um pássaro a sombra do teu enlaço poderia ve-la a voar a luz do teu olhar poderaia ser apenas um sonho ou penumbra dum abandono poderias ser tanta coisa coisa imensa coisa minha certamente seria menos enfadonho que esta estúpida teimosia

Quase perfeito

I Havia um trilho estreito onde o mar escoava no canto da tua boca havia uma luz leve, soturna diluida na iris do teu olhar havia uma praia deserta onde o céu gelado se esquivava pela curvatura dos teus ombros,devagar II O vento sussurrava Nossas sombras enevoadas no instante em que as unia Cada momento ecoava na leveza do meu vestido E... Nao me lembro de mais nada Nem consigo imaginar sei que foi tua por um breve momento deixei-me levar...

Liquidez

Vento, não me diz nada De costas para o sol Nossas sombras misturadas É surpreendente A maneira como abraças Com medo que as palavras manchem O significado de cada suspiro Na liquides das horas Um imenso vazio Sinto a polpa da boca A fluidez do olhar Ancoradas as tuas mãos No meu corpo, devagar…

Sonho

Queres me perceber? Por favor, não me faças rir Sou o vento Que por ti passa a fugir Sou a polpa da maça O desejo latente de possuir Uma leviana paixão O mundo, nada é Aos pés do mistério Encarnado em mim Queres-me? Só para ti A ganância turva-te a vista A quem diga que não exista Mas tu sabes o que respiras O perfume da minha fantasia Queres me perceber? Por favor, não o faças Sou natural de mais Simples de mais E é na simplicidade Que se encontra o complicado Ciclicamente Todo o que souberes Retomará novo significado…

"O Humano demasiadamente Humano"

sou um viajante ponto de chegada sou um viajante errante, sem estrada nao me prendo a coisa alguma nao há tempo a vida, toda ela, um momento desce a noite sobre o deserto até a aurora tudo me parece uma leve demora na descontinuidade sou um viajante onde os montes lançam-se a meu encontro onde as coisas que eram minhas simplismente nao são pois eu sou um viajante noutras frentes vejo a calma duma colheita espíritos livres veem a meu encontro tudo desaparece e o caminho esbate nascida a luz sou um viajante da "filosofia do meio dia" feita ela de brisa fluidez que me seduz
Uma onda! Aqui e ali... A minha mão sobreposta Na tua mão Asa de gaivota As nuvens roçavam o rosto Leviana paixão Minha perna descoberta A boca semi-aberta Sabes? A relva dá-me comichão... Uma onda! Aqui e ali... Uma gaivota Na minha mão Encostada no teu peito A planar fluidez da íris do teu olhar...

És mentira

No dramatismo encenado de cada gesto. No desfecho coreografado de cada momento. Na esfera ilusória do tempo vejo-te, absolutamente fulminante. Serás tu, talvez, aquilo que o olho percebe apenas a aparência que não transcreve o verdadeiro significado do ser Nem o gestualismo da teu vulto a tinta que escorre na enlouquecia do tumulto subordina o inconsciente. Serás tu, talvez, hipocrisia criadora de delírios fingidora de emoção mentiras que não valem a pena existir, e as quais tu chamas de paixão...

Se

Se eu esperasse na espera do desespero e quisesse como quem quer o último momento se eu fosse o folgo brando da vitória e compreendesse o verdadeiro significado do enlace dos teus olhos nos meus.

A ti voltarei

A ti voltarei, sim eu bem sei, que tentar esquecer é asneira que nada se compara a uma vida inteira que é impossível dizer adeus!