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A mostrar mensagens de 2016

Pedaços

Chegará o dia em que todos os pedaços de mim morrerão, delicadamente, por entre as ondas da maresia e o vento passará por entre os fios, uivando em agonia. A minha maior angústia é saber que apenas amei o sonho que sonhei. Vagarosamente, o tempo transforma-se em angústia, como um cavalo preto, perdido por entre a bruma da incerteza. Chegará o dia,  em que tudo aquilo que criei prontamente desaparecerá, e novamente os gritos desesperados da esperança consumirão o incenso das horas mortas. Olhas perplexo: milhares de pedaços de mim, como pó de estrelas, voam, voam... para lá do horizonte. 

Ébano

A tua pele escura na ponta dos dedos que curva entre infinito o improvável e o desassossego. Tu na tua forma mais perfeita de ser, a tua boca soturna e meiga em cada entardecer junto ao mar, aquele mesmo mar que antes nos separava e que hoje unidos vislumbramos. Vieste de tão longe de outro oceano roubaste a minha alma num sopro doce e brando ébano exuberante, olhos castanhos de pura sedução, só tu consegues deslindar os fios do meu pensamento.

Renegar

Tento respeitar a minha franqueza por um segundo, Tento aceitar a tristeza maior o gosto límpido do orvalho da manhã o sossego, a paz, o silêncio breve como a vida. Depressa inundo-me e renego o meu ser, a minha alma volto a adormecer pois só no sono mais profundo sou quem quero ser.

Algas

Um dia, quando o vento correr acordado até aos teus braços o verde será demasiado profundo e a areia demasiado espessa Nem o princípio de um palavra será necessária para delinear a densidade do teu abraço. No ar preso devagar emerge o teu sorriso oceânico. Aqui, o tempo não existe no instante dos teus dedos o dia pleno e limpo. Esta é a madrugada Em que junto ao cais espero atravessar a espuma luminosa e livres galgaremos o rumor das algas...

O futuro

Algum dia fui aquilo que hoje vagamente me lembro só depois de amanhã saberei o que pensar depois da amanhã Mas hoje não! Não posso pensar nas mil camadas de sal que cobrem a minha pele. Criança assustada num canto Choramingando a morte de um pássaro qualquer Carregando nos braços o gato Romeu Por entre, o ar lúgubre de um quarto no topo da casa um esconderijo, um sótão, pintando a cor-de-rosa... Hoje não quero pensar. No salto que a vida deu No tempo que passei sonhando, quando anos de vida? Acordei criança e adormeci mentida Na incerteza da dor sempre a mais triste O desejo de reviver o passado, As saudades do futuro, esse mito absurdo. O amanhã não existe. Não no agora, não! Apenas saberei isso amanhã. Essa é a certeza única.