Trago no fado desta noite a curvatura dos teus ombros, intemporais perdi-me em terrenos de luz e sal perdi-me no infinito segundo da tua mão na minha. Nuvens, nao havia, apenas uma noite profunda sem estrelas nem lua minha pele derretida como cera em tuas mãos minha alma nua por um momento, meu olhar apagado indulgente tecendo melancolia... trago no pensamento esta noite a voz muda inocente um cheiro inusitado de conchas e mar perdi-me, talvez, nem sei no verde oceanico do teu olhar a luz que derramava dos candeeiros preenchia os vazios da espuma solta ao longe o som dum búzio escondido voava tal como o vento por entre nossas bocas murmurantes voava por entre as ruas que a cidade tem gentileza dos meus cabelos trago na saudade deste poema a louca fantasia de ser alma da tua alma, até ser dia o amor passado que a boca sentiu e calou já eu os vivi, o tempo selou lembranças que me trespassam como punhais lembranças que me fazem sorrir das cinzas negra...
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A mostrar mensagens de setembro, 2008
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Bárbara Sousa
Tenho um cansaço imenso das coisas que não são minhas e aquelas que me pertencem tenho-as cansadas, a deriva talvez não seja cansaço apenas uma especie de desilusão que se entranha por debaixo da pele que mastiga os dias que passam às avessas, passam, depois caem no abismo das palavras que ficam por dizer ou daquelas que não deviam ter sido ditas estou tão cansada de te ver, de ser mendiga do teu mal querer... cansada, dum cansaço maior e vertiginoso cansada como um touro enraivecido que cai por terra vencido estou cansada do mundo e do que ele contém, múltiplas formas distintas de cópias identicamente estúpidas de tédio rastejante de tédio repugnante cansada... ( este poema bebe do cansaço de Álvaro de Campos)
Búzios e corais
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Bárbara Sousa
Naquela praia pacifica e nua vi astros diluídos na lua serenata de conchas vaporosas vi teu rosto de anjo adormecido por entre as dunas da minha carne branca exposta Naquela noite de bruma teu olhar era verde, azul e espuma era frágil encantamento ah! se algum dia o destino souber nos falar das ondas que fazem o mar esculpidas nos teus cabelos se algum dia souber desfazer a candura daquele anoitecer nuvens roçando como novelos e por entre a sombra crua dum beijo morno, esquecido meu olhar diamante, perdido nas encostas do teu dorso nas entranhas dum pesadelo animal selvagem, monstruoso a noite era fria até gelar era volúpia obscura era... gaivotas fugindo, horizonte de teus ombros intemporais braços abertos, musica, vento sussuros e medos verticais povoando o pensamento era... noite de abandono boca de sal e fel tatuada, ferro e fogo na pele cão uivando sem dono numa praia pacifica e nua vi meus sonhos pesados como rochas vi granadas de miséria ...
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Bárbara Sousa
Come o meu medo, vil segredo da tua delinquência. Come a massa viscosa que me cobre carcaça bolorenta. Bóiam farrapos da vida, que uma vez fui... Vejo-te diante de mim com o riso e soluço de chacal. Vejo-te a mastigar o coração atado junto ao peito. Não tem cor nem forma este mal que me escarnece e degrada de ser carne da tua carne fortuna desgraçada de ser escrava cativa da tua eloquência alma da tua alma vampiresa. E depois do sol se pôr, os meus pensamentos são um exercito de abutres que rodopiam na cavidade torácica da tua existência. Garras em lava que a vítima vigia garras em lava agarrando a inerte vida. Devastação secreta do teu bico afiado como uma navalha talhando a carne branca e macia. Sugas-me até aos ossos, sou apenas pele morta. Os olhos ja sem viço num silêncio de pasmo nesta luta ingrata cada tentativa falhada atormenta minha mente exposta. Os vermes que brotam e crescem...
Gueixa descarnada
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Bárbara Sousa
Havia um cemitério de pianos que tocavam só para ti na fatalidade desta existência como o vento nas areias Cada acorde atemorizava teus olhos espectros de água tua boca de gueixa. tinhas os membros pendentes como estalactites nas mãos o nó cego, apertado dum vil obscuro passado... Quebrou-se o gelo das colinas, ímpia, cruel e culpada, tua pele ensanguentada luz trémula de lamparina. A noite corria vagarosa agitados teus cabelos perto do abismo. teu vestido rubro e poeirento, que rodava fora da vista, tacteou... por entre o arvoredo as rochas e o escremento tacteou... por entre a vida. Tinhas feridas expostas, mas não sentias os dedos eram carne pisada, e tu morrias no fim da colina um cheiro a incenso ou velas de altar falsos choros de clemencias por entre flores putrefatas rezas de beatas, cadeiras bambas e bolorentas E nisto... um vazio. o nada na polpa da boca descarnada no vestido branco de seda...
Navalha
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Bárbara Sousa
Havia mosquitos infernais em tuas olheiras lágrimas teatrais rompiam as veias quero lá saber que morras por mim podes morrer dava tudo para te ver sofrer no calor da navalha o sangue escorre uivam cães nas colinas e uma estúpida neblina tenta me esconder mas eu estou aqui. Não me ves? sinto os teus pés sangretos os lábios rasgados e poeirentos sinto-te a esvanecer estou aqui para gravar o teu nome junto à minha lápide
Mundo
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Bárbara Sousa
Sobre as campas dos soldados mortos o musgo trepa. solidão um turbilhão de espectros arrastam-se por entre as manchas esfumaçadas que cobrem os ciprestes ouvem-se gritos. ricochetes de balas ouvem-se gemidos. gumes de facas O século é grande. tanto quanto a miséria o homem triunfante. preso nos labirintos da matéria caí o suor dos esfomeados caí o sangue dos leprosos caí por terra os condenados caí...caí...caí! Por entre bombardeamentos uma voz, um soluço o desejo de querer sempre mais caí corpo infiel caí pedaços de pele caí regime bolorento caí alma ao sabor do vento E sobre a macabra mesa. jantar divino a Tua cabeça... E sobre o colchão inerte. corpo enrugado o espírito pobre amaldiçoado nos seios virgens duma promessa em nome duma fé em nome dum deus qualquer em nome do progresso em meu, em teu nome a devastaçao aqui, além, mais longe. Minhas veias sussurantes arcadas inquietas, presas numa mão... sei que morri dentro de meu peito sinto-me. inerte entre os vivos na superficie da es...
Doentio
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Bárbara Sousa
Tenho a impressão, de que ainda me tocas com o fluxo intemporal dos teus dedos. O vinho que adormece os cabelos fez do teu templo minha boca. Num silêncio a preto e branco tinhas o pescoço enforcado nas minhas pernas por entre paredes cansadas o bafejar da chuva que não seca o contorno árduo e subtil dos teus ombros ancorados na almofada Sinto-te entranhado em mim meu ventre cru e nu como um crepúsculo. escapa do teu olhar ouiço uma voz arrastada e sussurante por entre o crivo das horas vagas os pensamentos ficam perdidos navio em mar de bruma navio em chamas Minha alegria culposa, irmã duma orgia estranha dobra-se no colchão onde ficou a saudade o tormento de tanta espera no teu rosto adormecido a solidão. o arrependimento. Tenho a impressão de que ainda me tocas não podendo evitar as nódoas negras as palavras de desdém, a cinza dos momentos o cheiro da cerveja, do limão e da erva seca não houve pássaros nem flores em teus braços: não houve curvas,...
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Bárbara Sousa
Arrasto esta carcassa desfigurada circulo pelo Funchal. cidade morta com os ossos que nunca vi. carne solitária o sangue ainda corre. numa dor surda um bando de abutres sobrevoava meus olhos reluzentes em cada esquina uma mensagem tua em cada prédio a sombra da tua voz em cada rua o cheiro do teu corpo persegue-me em camara lenta.... Alguém uiva no cimo da escada cada degrau me derruba no corrimão desta estrada surge ao longe um olhar cão da morte. dentes em lava Arrasto meus pés sangrentos cabelos ao tumulto do vento lábios gretados e poeirentos vejo-te nos lampiões destas ruelas embriagado de luz vejo-te debruçado nas janelas jogando facas vejo-te como uma traça girando em torno duma lâmpada penso que és sol. vida eterna...
Sóror saudade
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Bárbara Sousa
Irmã sóror saudade leva-me para ti nesta noite voluptuosa de desdém e fome. Perdida por entre planicies de cinza e cal teus olhos murmurantes postos em mim como se avistassem um estranho entre os abrolhos duma existência vaporosa. Irma sóror saudade eis me moribunda na amplitude desta floresta eis me vagabunda meu dorso escamoso epilético por entre os cavalos negros de minh'alma. Irmã sóror saudade parece que sofro do meu mal um mal onde habita o meu corpo rasgado em pleno delito, leves lençois de gelo em comunhão com os céus! Como a Noite, Irmã,é luar como o luar são cabelos ao vento e os sorrisos cadavéricos o meu alento Ó bendita Irmã de minh'alma abençoa-me agora e para sempre pois só tu me conheces intimamente pois já nem eu sei quem sou nem onde me perdi!
Fingir
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Bárbara Sousa
Finjo que estou bem o corpo ensaguentado. vestido a rigor manchas amareladas. feridas decompostas berros descontrolados . por entre sorrisos finjo que estou bem olhas-me mas não sabes por entre as ruelas. uma cidade ninguém sabe. as mãos trémulas e friorentas as pessoas são tão desprezíveis hipócritas e sínicas falam mas não imaginam sou vidro. não veem estilhaços de mim... olhas-me e não sabes dentes em lavas. num desatino finjo que estou bem o corpo embrabece a boca emudece fica a necessidade de saber será hoje o fim...