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La Pagerie

O perfume das rosas desfez-se por entre a ressonância dos dedos a porcelana perfumada do chá.  Já despojada do império, sorri... Vestida de seda, de fluidas memórias.   A sua voz é atemporal. Ecoa entre os espinhos  do castanho avermelhado que ondula, sobre o seu rosto reclinado  por entre pinturas, cartas e esculturas.   O tempo banhado em azul-turquesa. E tu voltaste a La Pagerie, entre hibiscos de folhagem exuberante, onde a natureza ganhava espirito absoluto. E as essências do jasmim evaporam-se.  Em cada infusão, o som das ondas. 

Renascimento

Serás tu aquela que destrói a luz ou a que invoca a cura? Em cada bago da romã  a promessa ecoa suspensa. Parou, desceu do cavalo,  colheu as flores silvestres coroou-se de brisa agreste. O seu cabelo de cobre escorrido  por entre as gotas suspensas. O poder tornou-se eco, de água suspensa no ar. Engolindo cada gota  como absinto  no pardo luar. 

Olhos de Cristal

Saúdo-te, olhos de cristal. Há trezentos anos eras o último rei, e ainda assim, estiveste dezanove à minha espera... Sou o pulso que desperta, o eco que anuncia liberdade Vejo-te nos sonhos. Presente em cada gesto, envolto em mistério. Teu trono de sombras e ouro murmura segredos antigos.  E as paredes do tempo reverberam o silêncio!  Entre o passado que se despede e o agora que me habita, dançamos na penumbra dos séculos, onde cada suspiro é lembrança e cada silêncio, promessa... Que a memória não se dissolva, que a promessa não se perca... Sou o fogo que mantém acesa a chama da tua casa. E tu, olhos de cristal, és a leve esperança que ainda me habita. Existe emoção para além da pulsação da poeira da vida.

outubro

Desde que te foste tenho o peso do mundo nos ombros as réstia de um outubro em que persiste o deslumbre  da tua mão presa no esboço  que despes e cobres de beijos quando a espuma ofusca o vulto do teu corpo junto ao mar seminu e místico  numa espécie de onda tardia que bate e arrepia na fluidez  dos teus abraços desfeitos em sal. Não me prometas. Nem me despertes antes submersa no vazio.  Etérea, me avisto como uma escultura coberta em algas que surge e logo é naufragada contra os teus joelhos no chão.

Treze

Pouco mais és, do que a tua própria negação. É estares, algures, fantasiado de conquistas daquilo que achaste que irias ser. Na fragilidade dos dias, Já não és a felicidade líquida, em cada foto encenada  vendes-te por quase nada  de que vale o politicamente correto  se à noite sonhas que te beijo se me vês em cada esquina se te consomes de desejo apenas sou uma fantasia? Diz sem medo se o desenho que te dei ainda está pendurado na parede... se as fotos que apagaste  não as vês na  superfície branca mas sim na tua mente lá, continuamos iguais. Ninguém te fará invencível  como eu, sem hesitar, sem medo de ser como eu, ninguém.

Neblina

O passado como uma neblina foge por entre os dedos é como se o corpo permanece-se  estático e submerso no tempo. Acordo ofegante, nem sei que dia é hoje mas tudo continua em  movimento Fugiste-me por entre as dunas  não te persigo na insondável flutuação da tua mão junto à minha. Avisto... O não-futuro desde sonho azul,  como o teu olhar, assombrante   à volta de um navio naufragado.  Junto à areia a paisagem é perigosa  a brisa exaltada de verde água  na queda do véu junto ao mar. Aqui fico, olhando as escarpas  na flutuação da ternura da boca contra a minha, o corpo repousado no sal marinho da tortura aqui te espero, aqui sou tua. 

Mar

Sinto a tua falta cada lugar é a tua ausência  o mar a tua casa  por entre o azul das rochas o vaporizar de cada onda sinto falta  de cada beijo, de cada toque não confio nos meus sentimentos  ninguém lê os meus apontamentos  nem me liga galgando ao sabor do vento  cruzando montanhas.  Faço-te falta metade de ti já não está na areia, no ondulado da tinta do teu corpo as algas adormecem por entre os dedos.