Saúdo-te, olhos de cristal. Há trezentos anos eras o último rei, e ainda assim, estiveste dezanove à minha espera... Sou o pulso que desperta, o eco que anuncia liberdade Vejo-te nos sonhos. Presente em cada gesto, envolto em mistério. Teu trono de sombras e ouro murmura segredos antigos. E as paredes do tempo reverberam o silêncio! Entre o passado que se despede e o agora que me habita, dançamos na penumbra dos séculos, onde cada suspiro é lembrança e cada silêncio, promessa... Que a memória não se dissolva, que a promessa não se perca... Sou o fogo que mantém acesa a chama da tua casa. E tu, olhos de cristal, és a leve esperança que ainda me habita. Existe emoção para além da pulsação da poeira da vida.
Tudo parece-me transcendental apática, perdida sem cor a vida, é esfinge cadavérica movendo esferas, numa valsa teatral Totalmente imóvel, como um pilar de sal minha boca permanece solidificada pela dor dum abandono. Pés caídos, desmembrados enquanto ecos de assombro povoam-me o espírito! Diz-me que abriras os olhos, diante de ti a miséria a fome de cada dia. Já não sinto os cortes nem as fracturas expostas a drenar o sangue do sangue dos olhos que olham nos teus sem nome. Nas cadeiras bandas, nas esquinas por entre o piso molhado. As gotas da fobia cerradas neste quarto onde tempo passa sem pressa de partir ao chegar sem vontade de esquecer o teu rosto aquilo que faz a lua sonhar.
O perfume das rosas desfez-se por entre a ressonância dos dedos a porcelana perfumada do chá. Já despojada do império, sorri... Vestida de seda, de fluidas memórias. A sua voz é atemporal. Ecoa entre os espinhos do castanho avermelhado que ondula, sobre o seu rosto reclinado por entre pinturas, cartas e esculturas. O tempo banhado em azul-turquesa. E tu voltaste a La Pagerie, entre hibiscos de folhagem exuberante, onde a natureza ganhava espirito absoluto. E as essências do jasmim evaporam-se. Em cada infusão, o som das ondas.
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