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Renegar

Tento respeitar a minha franqueza por um segundo, Tento aceitar a tristeza maior o gosto límpido do orvalho da manhã o sossego, a paz, o silêncio breve como a vida. Depressa inundo-me e renego o meu ser, a minha alma volto a adormecer pois só no sono mais profundo sou quem quero ser.

Algas

Um dia, quando o vento correr acordado até aos teus braços o verde será demasiado profundo e a areia demasiado espessa Nem o princípio de um palavra será necessária para delinear a densidade do teu abraço. No ar preso devagar emerge o teu sorriso oceânico. Aqui, o tempo não existe no instante dos teus dedos o dia pleno e limpo. Esta é a madrugada Em que junto ao cais espero atravessar a espuma luminosa e livres galgaremos o rumor das algas...

O futuro

Algum dia fui aquilo que hoje vagamente me lembro só depois de amanhã saberei o que pensar depois da amanhã Mas hoje não! Não posso pensar nas mil camadas de sal que cobrem a minha pele. Criança assustada num canto Choramingando a morte de um pássaro qualquer Carregando nos braços o gato Romeu Por entre, o ar lúgubre de um quarto no topo da casa um esconderijo, um sótão, pintando a cor-de-rosa... Hoje não quero pensar. No salto que a vida deu No tempo que passei sonhando, quando anos de vida? Acordei criança e adormeci mentida Na incerteza da dor sempre a mais triste O desejo de reviver o passado, As saudades do futuro, esse mito absurdo. O amanhã não existe. Não no agora, não! Apenas saberei isso amanhã. Essa é a certeza única.

Sou

Olha para mim, sou pele cicatrizada sou o grito sufocado na garganta o corpo rasgado a alma vestida. sou este fantasma de mim que caminha sou eu! na forma mais primitiva do meu ser. que outra coisa poderia ser? (tremem -me as mãos) olha-me, de dentro para fora que o corpo apenas é uma carcaça... e nada mais importa! o tempo não é nosso é um  intervalo entre o real e o imaginado e nada é concreto porque tudo foi criado. olha para mim, para o profundo e o infinito de mim. cada dia, sobrevivo-me.

Silêncios

Nos instantes ou momentos em  que as palavras são vapor os silêncios gritados que guardo dentro de mim são ecos infinitos que me estrangulam. Caí no vazio, perdi a consciência quero correr numa espiral e não olhar para atrás ao cruzar a meta ganharemos os dois? Vou quebrar as palavras para que o ar possa fluir O que há em mim? Nada, tudo deixou de existir. Quero a liberdade da lucidez por entre o arvoredo gelada em voo inerte não voltarei, jamais!

Solidão

Haverá algo mais triste do que a solidão? Pergunto-me. A vida passa e com ela leva cada pedaço da minh'alma Onde estão os sonhos que sonhei? Perdidos, talvez. Já não há sorrisos, não. Não há velas, nem festas, nem balões No tempo em que eu era feliz, pensava que seria sempre assim, Pensei que  "para sempre" o céu seria feito de algodão e as montanhas de biscoito. No tempo onde cantavam-me os anos como se o meu nascimento fosse algo especial, mas não é. Não há nada de especial em mim. Apenas sou. Existo. E como algo que existe também um dia morrerei e ninguém se lembrará de mim. Vigiam-me, observam-me como se fosse o ser vil, desprezível. Apenas sou uma mulher, acorrentada a uma falsa esperança de que algum dia algo mudará. Algo? Mas o que? Não sei. Tudo mantém a sua forma, o seu caminho, imutável. Julgo não merecer ter amizades. Pois nunca as tive. No entanto, tento sorrir. Sou uma atriz no palco que é a vida, Sou a cicatriz profunda e mal sarada de um...

Realidade

Na ondulação de cada palavra nunca proferida  apenas escrita f ica a estranha sensação  de existir um mundo para  além  desta realidade para  além  de ti, de mim, de nós.  Talvez noutra dimensão a tua voz pudesse tocar  a minha pele pudesse falar o teu cabelo pudesse ver a imensidão dos teus olhos, o mar.  Eu pensei que era outra, que não era eu. Pensei que em mim existias tu, sendo outro sendo a cada palavra, a cada beijo, distinto mas  igual  a ti mesmo milhões de beijos,disseste tu e a  janela  do meu mundo fechou-se.