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Outubro

Desde que te foste, tenho o peso do mundo nos ombros. As réstia de um outubro em que persiste o deslumbre  da tua mão presa no esboço  que despes e cobres de beijos quando a espuma ofusca o vulto do teu corpo junto ao mar. Numa espécie de onda tardia bate e arrepia na fluidez  dos teus abraços desfeitos em sal. Não me prometas, Nem me despertes. Antes submersa no vazio, etérea, me avisto como uma escultura coberta em algas que surge e logo é naufragada. Contra os teus joelhos no chão.

Treze

Pouco mais és, do que a tua própria negação. É estares, algures, fantasiado de conquistas daquilo que achaste que irias ser. Na fragilidade dos dias, Já não és a felicidade líquida, em cada foto encenada  vendes-te por quase nada  de que vale o politicamente correto  se à noite sonhas que te beijo se me vês em cada esquina se te consomes de desejo apenas sou uma fantasia? Diz sem medo se o desenho que te dei ainda está pendurado na parede... se as fotos que apagaste  não as vês na  superfície branca mas sim na tua mente lá, continuamos iguais. Ninguém te fará invencível  como eu, sem hesitar, sem medo de ser como eu, ninguém.

Neblina

O passado como uma neblina foge por entre os dedos é como se o corpo permanece-se  estático e submerso no tempo. Acordo ofegante, nem sei que dia é hoje mas tudo continua em  movimento Fugiste-me por entre as dunas  não te persigo na insondável flutuação da tua mão junto à minha. Avisto... O não-futuro desde sonho azul,  como o teu olhar, assombrante   à volta de um navio naufragado.  Junto à areia a paisagem é perigosa  a brisa exaltada de verde água  na queda do véu junto ao mar. Aqui fico, olhando as escarpas  na flutuação da ternura da boca contra a minha, o corpo repousado no sal marinho da tortura aqui te espero, aqui sou tua. 

Mar

Sinto a tua falta. Cada lugar é a tua ausência,  o mar, a tua casa.  Por entre o azul das rochas, o evaporar de cada onda, sinto falta  de cada beijo, de cada toque. Não confio nos meus sentimentos.  Ninguém lê os meus apontamentos,  nem me liga. Galgando ao sabor do vento  cruzas montanhas.  Faço-te falta? Metade de ti já não está na areia, no ondulado da tinta do teu corpo, as algas adormecem  por entre os dedos.

Porta aberta

Tens sempre a porta aberta amor Entra e sai quantas vezes quiseres  Ora sorrindo  Ora chorando Ora mentindo  Ora desabafando  Uma coisa é certa de mim apenas terás  A melancolia de quem olha as ondas do mar No instante que bate a dor Não acredito nas tuas palavras de Salvador Nem da visão heróica dos teus feitos  Apenas na tumba serás verdadeiro

Esperança

Pousaste a mala à frente do táxi  ali me deixaste no segundo  em que partiste  esse foi o teu maior ato de valentia abandonar qualquer réstia de esperança  e se nos falta a esperança então que nos resta? Olho para o perfume que me deixaste O frasco está vazio, ficaram os dedos Que o tocaram, sem medo. É o único frasco vazio que tenho, Gostaria de me desfazer dele. É a última ligação que temos, E que triste é  saber que agora  estás noutra parte,  Que pensarias se soubesses  que abro aquele frasco  quando a saudade aperta e penso nos teus olhos de seiva debruçados sobre o céu estrelado  do meu rosto.

Vazio

Nada parece certo o espelho vazio  A mesinha de cabeceira já não tem o pacote de cigarros e tu já não me mentes mas faltas tu, na imensidão das horas  que passo sem ti e tu sem mim apenas faltas tu  pois eu amor, continuo exactamente aqui  com os pés enterrados na areia preta as ondas batem aceleradas mas tu tardas juraste que não me falarias nunca mais também isso foi mentira  o vazio é cada vez maior e eu não me encontro. Pergunto: também me levaste amor?